Na página 12 da revista Scientific American Brasil do mês Março de 2011 (ANO Nove; Nº106) encontra-se o texto “Processando a Gripe”. Abaixo, segue a reportagem digitada. (As imagens não fazem parte da revista. Foram postadas por nós.)

“PROCESSANDO A GRIPE

Um ímã gigante ajuda a esclarecer como o vírus da influenza A sofre mutações para resistir aos medicamentos

Agora com a gripe resistindo aos medicamentos mais comuns, médicos e fabricantes de remédios enfrentam um crescente quebra-cabeça sobre como combater o vírus. Um ímã de 900 megahertz oferece novas pistas. Bioquímicos da Florida State University e da Young University usaram um ímã de 40 toneladas para obter imagens atômicas do vírus, não apenas para confirmar como ele escapa da aniquilação, mas também para revelar alternativas para a produção de novas drogas.

O estudo se concentrou na influenza A, o vírus responsável pelas cepas pandêmicas – mais especificamente, numa das proteínas da superfície do vírus conhecida como M2, que desempenha um papel importante na reprodução. Os medicamentos antivirais – Amantadina e Rimantadina, que foram amplamente usados durante anos para combater o vírus da influenza A, tampavam o caminho da proteína M2 como uma tampa de ralo de banheira, evitando sua reprodução. Ao longo dos anos, alterações na forma da M2 permitiram que a proteína conseguisse escorregar por entre essas tampas e evitar a erradicação. Em 2006, o Centers for Disease Control and Prevention emitiu uma recomendação contrária ao uso desses dois medicamentos. Embora o mecanismo geral de resistência já fosse conhecido havia algum tempo, o funcionamento da M2 era menos claro.

O grande ímã fornece uma visão interna do vírus, do mesmo modo que uma ressonância magnética por imagem (RMI) pode ser usada para examinar dentro de seus órgãos. A abordagem, chamada de espectroscopia por ressonância magnética nuclear (ERM) de estado sólido apresenta imagens semelhantes às da RMI, mas com diferenças fundamentais. O campo magnético gerado durante a RMI é capaz de torcer e girar o hidrogênio nas moléculas de água e alinhá-las. A imagem resultante – de um joelho, cérebro ou tumor – é uma foto das moléculas à medida que retornam para sua composição original; diferentes tecidos “giram” em diferentes velocidades.

Mas a proteína M2 fica na membrana celular que é repelente à água, impossibilitando que sejam feitas as imagens por MR. O campo magnético gerado pela espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) é capaz de torcer e girar outros elementos além do hidrogênio, possibilitando captar a imagem das proteínas que não vivem em meio aquoso. Além disso, as amostras podem ser congeladas, facilitando muito a observação de proteínas escorregadias como a M2.

Ao se concentrar nos átomos de nitrogênio, Timothy A. Cross da Florida State University e seus colaboradores foram capazes de determinar exatamente como a M2 funciona. Descobriram que a proteína, com a forma de um canal com poros em ambas as pontas, tem de ser ativada por um ambiente ácido para poder funcionar. Dois aminoácidos – histidina e triptofan – ativam o processo: a histidina carrega prótons de uma célula hospedeira para o interior viral, e a triptofan atua como um portão e abre-se assim que os prótons chegam. Essa passagem de prótons através dos poros da M2 é o que permite sua reprodução.

Segundo as descobertas, publicadas na Science, o mecanismo da M2 é único, o que pode significar boas notícias para os fabricantes de remédios. “Talvez possamos desenvolver um remédio que atinja especificamente essa [novidade] química”, diz Cross, observando que a dependência do vírus em relação à M2 poderia dificultar a mutação frente a uma droga específica.

– Jessica Wapner

Imagem da proteína M2.

His37→Histidina

Trp41→Triptofan

H+→Próton (Núcleo do átomo de Hidrogênio)

Viral Membrane→”Membrana Viral”

 

Site (Em inglês) do “Magnet Lab” (Mais sobre o Íma Gigante usado): link

 

Informações sobre o Ímã

ALTURA: 4. 7 m

TIPO DE ÍMA: SUPERCONDUTOR

MASSA: 36 287 Kg

DENSIDADE DE FLUXO MAGNÉTICO: 21. 1 T

OPERANTE DESDE: Julho, 2004

TEMPERATURA DE FUNCIONAMENTO: 1. 7 K

CUSTO: $19 milhões

COMPRIMENTO DOS CABOS SUPERCONDUTORES: 153 Km

DIÂMETRO (ESPAÇO DO ÍMÃ PARA EXPERIMENTO): 105 mm

São utilizados 2 400 litros de Hélio líquido (e outros compostos) para resfriá-lo até a temperatura ideal (e para matê-lo nessa mesma temperatura).